Por Julianne Cerasoli
O treinamento está em dia e a confiança nunca esteve maior. Na hora da prova, um amigo íntimo – ou melhor, dois – resolve atrapalhar a festa. Muita gente esquece que são os pés que ficam lá, batendo no chão quase mil vezes por quilômetro. Por isso, devem ser tão bem cuidados quanto um cantor tem que preservar sua voz.
Como de costume, prevenir é o melhor remédio. As precauções que os corredores devem tomar para não serem surpreendidos com uma inocente bolha ou até com problemas mais graves são simples, porém vitais, para a saúde dos pés. Ter boa higiene é um ponto fundamental. Manter os pés limpos e arejados após os treinos evita o aparecimento de frieiras e doenças de pele; frequentar um podólogo não só trata, mas também evita a formação de calos, unhas encravadas e infecção por fungos nas unhas. Uma dica básica é secar bem os pés após o banho e usar, de preferência, talco antisséptico.
Na opinião do treinador Paulo Rocha Júnior, problemas como uma bolha ou a perda de unha são comuns para todos os praticantes, sendo causados geralmente pela escolha errada do calçado e/ou meia, como também pela variação climática de uma prova.
Júnior lembra ainda que é corriqueiro ver novos corredores utilizando tênis inadequados. “Acontece muito disso. Quando a pessoa vem conversar, se inscrever no grupo ou mesmo fazer o primeiro treino, observo que o calçado não é o correto. Nesse momento, você tem que explicar para o aluno a necessidade de fazer um investimento, pensando justamente no desenvolvimento dele no esporte e evitando certos problemas”, explica.
O treinador lembra que é muito importante, na formação do atleta, dar noções de cuidados com o corpo, entre eles os pés, e não somente prescrever treinos e estabelecer metas. “O corredor deve começar a ficar atento desde o primeiro momento. Cuidados básicos como deixar a unha aparada, comprar tênis e meias adequadas, manter uma boa higiene, vão ajudá-lo, e muito, na prática esportiva.”
Cuidar da higiene é o primeiro passo, mas é fundamental estar atento a todas as variáveis, como o terreno utilizado no treino e a própria execução dos movimentos, uma vez que um erro neste quesito pode fazer com que o corredor gaste energia sem necessidade. Afinal, a maioria das lesões é cumulativa.
MEIAS
Muitas vezes relegada ao segundo plano, a meia é um item de suma importância. Já imaginou colocar uma meia mais grossa para correr num dia quente ou numa prova longa? A bolha é quase certa e, se não acontecer, a sensação de pé quente e úmido é muito desconfortável.
Para evitar erros, lembre-se: a meia ideal não deve possuir sobras! Fique atento com a posição da costura, para que não cause atrito com os dedos e unhas, ocasionando pequenas feridas; com o tecido empregado na construção da peça – tecidos tecnológicos, que garantem respirabilidade ao produto, são os mais indicados –; e também com a lavagem e secagem das peças, para não diminuir a vida útil do produto (vale conferir as especificações nas etiquetas dos produtos). Uma meia inapropriada para a corrida pode causar superaquecimento do pé – facilitando a perda de estabilidade –, e o surgimento de bolhas. Isso também vai desviar sua atenção da corrida em si, causando mais desgaste.
TÊNIS
O tênis também é primordial neste caso, pois, à medida que o atleta corre, seu fluxo sanguíneo aumenta, fazendo com que os pés inchem. Por isso, a recomendação é comprar os tênis um ou meio número acima do que normalmente usa, para acomodar melhor o pé durante toda a prova ou treino. Se o tênis ficar um pouco justo já é o suficiente para acabar com as unhas. Podem sair bolhas até de sangue por baixo delas e a unha acaba caindo, o que pode machucar a estrutura da raiz e nunca mais o corredor terá uma unha decente, ou seja, ela sempre será irregular. “É muito importante atentar ao tamanho adequado do calçado esportivo a fim de se evitar problemas sérios com as unhas. O tênis de corrida de tamanho ideal deve comportar o espaço de um polegar entre a extremidade do dedo mais longo dos pés e a ponta do calçado”, alerta André Donato Baptista, ortopedista especialista em pés e tornozelos.
ALONGUE
Até o simples ato de alongar pode ajudar na prevenção de lesões no pé, mesmo indiretamente. “Lembrando que a maior parte do trabalho deve estar focada na forma como se faz a evolução da carga de treinamento, a execução do alongamento e da flexibilidade é importante para promover o aumento da amplitude da articulação envolvida, facilitando a melhoria da técnica e da performance”, observa o treinador Vitor Tessutti, que recomenda o alongamento do arco do pé. “Esta estrutura tem um grande papel amortecedor, diminuindo cargas às quais o pé é exposto”. Para alongar esta musculatura, é necessário que empurre somente as pontas dos dedos dos pés, tentando direcioná-los para o dorso. “Após a corrida, realizar novamente os alongamentos, evitar caminhas longas ou permanecer em pé por longos períodos. Repouso, elevação dos pés e imersão em água gelada por um período de 20 minutos favorecem a circulação local”, completa Baptista.
TIPO DE TERRENO
Pelo menos quando se trata da escolha do piso para treinar, a palavra exagero está quase sempre associada a lesões. Os pés que o digam. De acordo com Tessutti, quanto mais rígido ou macio o terreno, pior para a musculatura envolvida no processo de distribuição da força do impacto entre o solo e o corpo. E, no meio dessa batalha, está justamente o pé, principalmente no chamado pico passivo, momento em que os músculos não têm tempo para contrair e amenizar a exposição dos mesmos a esta força. “Em superfícies rígidas, os pés estão expostos a uma maior força de reação do solo. Mas também a situação inversa é verdadeira, uma vez que em pisos muito macios, em que a propulsão é dificultada, há uma maior necessidade de geração de força muscular, levando precocemente à fadiga”, explica. Outro exagero é em relação ao volume de treino. Se este for muito elevado particularmente em um único terreno, pode haver lesão por excesso de uso.
O ideal é que o sistema músculo-esquelético gaste o mínimo de força para amortecer o impacto para, assim, concentrar-se em produzir energia para o movimento, ou seja, ajude o atleta a correr mais rápido. Se não fosse esse sistema, o corpo teria um gasto energético 65% maior ao fazer o movimento. Nesse caso, as superfícies mais rígidas, como calçamentos e pisos de concreto, são a melhor opção. O asfalto, por mais estranho que pareça, não está entre eles, pois o pavimento utilizado permite deformação e consequente dissipação de energia. A grama pode ter irregularidades e buracos ‘escondidos’ pelas folhas. “Por não ser tão rígida, não favorece o bom aproveitamento do ciclo de alongamento-encurtamento da musculatura”, defende Tessutti.
O profissional reconhece que o organismo consegue se adaptar de maneira bastante eficiente aos diferentes terrenos, mas alerta que isso apenas influencia quando os volumes são baixos ou médios. “Em maiores distâncias, o efeito cumulativo dos fatores de estresse para os pés têm uma progressão muito grande. Mesmo sob uma superfície macia com um tênis de amortecimento, pode-se desenvolver lesões.” O treinador recomenda que o corredor escolha o piso de acordo com seu objetivo. “Para trabalho de velocidade, por exemplo, a superfície mais rígida é mais interessante do ponto de vista da performance, mas, considerando o impacto que será gerado, há a necessidade do controle da quantidade deste treino.”
Para Baptista, porém, o grande vilão da saúde dos pés está longe dos treinos e não depende do piso. “Como ortopedista especialista em cirurgia do pé e tornozelo, acredito que o maior mal para os pés é o uso de salto alto com frequência. O salto alto acarreta uma sobrecarga na parte da frente dos pés e um encurtamento da musculatura da panturrilha e do tendão de Aquiles. Com o passar do tempo, podem surgir calosidades dolorosas, deformidades em garra nos dedos, ‘joanetes’, tendinites do tendão de Aquiles, entre outros.”
TRATAMENTO
Como em qualquer problema físico, consultar um especialista pode poupar o paciente de alguns percalços desnecessários. No caso dos pés, mesmo uma aparentemente simples unha encravada pode interromper o treino por um bom tempo.
Nesse caso, um dos especialistas que podem ajudar é o podólogo. Ele trabalha na prevenção e no tratamento de afecções na área, atuando em conjunto com médicos. De acordo com o podólogo Orlando Madella Júnior, o profissional deve possuir conhecimentos de anatomia, fisiologia e podopatias, além de conhecimento biomecânico.
Madella recomenda que o corredor consulte um podólogo mesmo que não tenha problemas aparentes. “Aconselho a fazer uma terapia nos pés, ou seja, cortar as unhas, desbastar calos e calosidades em média uma vez por mês.” No entanto, o trabalho de prevenção deve ser conduzido treino após treino. “O corredor deve verificar o perfeito ajuste das meias, usar tênis adequado e passar creme hidratante entre os dedos, a fim de diminuir o atrito da meia contra a pele. Logo que sentir uma região do pé dolorida ou sensível, pare e verifique a causa. Corrija o problema da meia ou do calçado e cubra a região com anteparo especial.”
O podólogo destaca o cuidado com a higiene para evitar os problemas que considera mais comuns entre os atletas, como bolhas, calos, unhas encravadas, traumatismo e queda da unha, além da própria transpiração. “Os pés devem ser lavados imediatamente ao final de cada etapa”, afirma. Outra dica é apostar em massagens. “A massagem realizada por fisioterapeutas após a atividade física intensa é bastante benéfica para a recuperação muscular e ajuda na drenagem linfática da região, favorecendo a circulação, o que diminuirá o acúmulo de ácido lático e radicais livres na região (substâncias inimigas da recuperação muscular).”
O ortopedista André Baptista explica que os corredores não devem se preocupar com os calos – ao menos enquanto não forem dolorosos. “Os calos são muito frequentes em atletas, especialmente nos corredores. Nada mais são do que uma reação de proteção que a pele desenvolve em resposta ao atrito e sobrecarga em determinada região. Não há porque se preocupar com calosidades se elas não são dolorosas. Nos casos em que os calos passam a ser dolorosos e limitantes para a atividade física e para a performance do atleta estará indicada uma consulta com o ortopedista para uma melhor avaliação quanto à possibilidade de deformidades ósseas, alterações anatômicas e mecânicas nos pés que favoreçam o surgimento de calosidades dolorosas.”
As unhas também devem ser observadas, pois mudanças de coloração (esbranquiçadas) podem indicar que foram infectadas por fungos. Além disso, as palmilhas necessitam de orientação médica, pois são capazes de modificar a posição de apoio do pé no solo, interferindo na biomecânica da corrida. Antes de usar talcos e cremes antifúngicos, a recomendação é procurar um especialista. Outro problema são as unhas encravadas, também de fácil tratamento. “A melhor maneira de evitar que as unhas encravem é mantê-las aparadas com corte sempre reto. Ao apararmos as unhas, não devemos fazer ‘curvas’ nos cantos e sim mantê-los em ângulo reto”, indica Baptista.
Para o profissional, não há um ponto mais relevante do que outro quando o assunto é a saúde dos pés. “Todos são importantes.” Desde limpeza e escolha ideal dos equipamentos e acessórios, que o corredor nunca se esqueça de cuidar da sua plataforma base. Afinal, é ela que o sustenta e o mantém de pé até a linha de chegada.
TIPOS
O pé possui dois arcos (longitudinal e transverso), suportados pelos músculos extrínsecos e intrínsecos. São essas variáveis que determinam os tipos, plano e cavo.
No primeiro caso, os ossos do tarso tendem a formar uma linha reta ao invés de um arco, perdendo em amortecimento. No segundo, o arco longitudinal é muito acentuado, fazendo com que haja pressão demasiada nas cabeças dos metatarsianos, o que resulta na formação de calosidades e fasciite plantar caso não seja utilizado o tipo certo de tênis.
Na hora de escolher um modelo, é fundamental conhecer o seu tipo de pisada: neutra, pronada (pé voltado para dentro) ou supinada (pé voltado para fora). Existem tênis feitos especificamente para cada tipo e a escolha errada pode ser fatal. Um jeito caseiro de descobrir em qual categoria você se encaixa é pisar com os pés molhados em uma toalha ou papel. Dependendo dos pontos em que a água deixar marcas será possível fazer a identificação. Porém, na maioria das lojas especializadas há equipamentos que ajudam a detectar o tipo de pisada e vendedores treinados para indicar os modelos para cada uma.
DICAS DE HIGIENE
Para evitar o chulé:
- Lave diariamente os pés com água morna e massageie-os com álcool iodado ou canforado ou banhe-os com água de anil.
- Utilize talco ou desodorante spray próprios para pés. Evite talcos à base de bórax, que só agravam o problema. Os produtos podem ser usados tanto no pé quanto no tênis.
- Mantenha sempre as unhas cortadas.
- Ao tomar banho, ensaboe os pés com sabonete à base de formol.
- Caso estiver com mau cheiro nos pés, enxágue-os com uma mistura de água e bicarbonato de sódio.
- Não deixe de usar meias, preferivelmente de tecido natural, como algodão.
- Sempre que possível deixe seus pés respirarem livremente sem meias.
Contra frieras:
- Use meias específicas para corrida, que permitem maior evaporação do suor e não possuem costuras, e troque-as diariamente.
- Evite usar o talco diretamente nos pés para correr, pois o suor e o atrito podem ocasionar feridas entre os dedos.
- Evite pisar descalço em vestiários, piscinas e chuveiros de uso público.
- Após o banho, enxugue muito bem os espaços entre os dedos e, em seguida, use talco antisséptico.
- Quando possível, prefira usar calçados que permitam que o pé ‘respire’, como sandálias. Sapatos de couro ou tecido são a melhor opção.
- Coloque os sapatos úmidos no sol, para matar os fungos.
Contra bolhas:
- Não fure as bolhas, pois isto aumenta a possibilidade de infecção a não ser que a agulha esteja esterilizada com álcool. Neste caso, apenas retire o líquido, não a pele.
- Não esquente a agulha, pois isso pode liberar gás carbônico e provocar inflamação.
- Se estiver com bolhas, lave a superfície atingida duas vezes ao dia com sabão antibateriano e faça curativo com uma abertura no centro, sobre ela. Aplique pomada antibiótica para ajudar a cicatrizar.
- Evite tênis muito apertados ou muito largos.
- Se tiver bolhas seguidamente no mesmo local, cubra-o com vaselina antes dos treinos ou use duas meias ou meias anti-bolhas.
- Use desodorante para os pés para diminuir a umidade.
E CUIDE BEM DOS SEUS TÊNIS
Cuidados simples e práticos garantem maior vida útil do seu fiel companheiro de treinos e provas
Corredor que se preze sabe que são necessários vários cuidados na hora de escolher seu ‘instrumento de trabalho’ para a corrida. Tipo de pisada, tecnologias que permitem um bom amortecimento e ventilação, tudo deve ser adequado a suas características.
A hora de aposentar seu par também tem suas regras. Em geral, sinais de desgastes na sola não são bem-vindos, e mais de 600km rodados também são um alerta. No entanto, se você estiver acima do peso ou voltando de lesões, a atenção deve ser redobrada. “A vida útil de um tênis é de aproximadamente seis meses. Há quem consiga usá-lo por um ano, mas, mesmo o tênis apresentando bom estado de conservação, é preciso estar atento ao sistema de amortecimento; alguns tênis vêm acompanhados de um amortecedor reserva o que prolonga a sua vida útil”, observa o corredor João Idelfonso Maurício Rosa, atleta da treinadora Miriam Caldasso.
Porém, o que muita gente se esquece é que soluções simples ajudarão seu calçado a manter suas propriedades por mais tempo. Cuidado, isso não quer dizer que você poderá transformar seu tênis em um ‘Highlander’ da vida, do tipo que não morre nunca, mas ao menos terá maior garantia de que o produto é o melhor possível mesmo depois de muitos treinos.
Pensando nisso, Corredores S/A foi atrás de treinadores e corredores experientes, que darão suas dicas de como conservar da melhor forma possível seus grandes amigos.
NA HORA DE LAVAR:
- Evite lavar o tênis de treino, se puder só passe um pano úmido.
- O tênis só deve ser lavado quando não tiver mais jeito mesmo.
- Na lavagem devemos separar a carcaça do cadarço e palmilha e secar na sombra, evitando o desgaste do sol.
- Nunca colocar na máquina de lavar.
- Use escovas macias e sabão neutro na lavagem.
- Ao lavar, tire as palmilhas e lave-as da mesma forma, tomando o cuidado para secar e posteriormente colocá-las de forma correta novamente no tênis, para que não deforme.
- Há no mercado uma espuma limpadora de tênis. Custa em média 20 reais e é encontrada nas mesmas lojas esportivas. É uma boa ajuda na limpeza e conservação do seu companheiro.
Dicas dos treinadores Paulo Rennó, André Vazquez, Carlos Ventura e José Martins Júnior e dos corredores João Idelfonso M. Rosa, da equipe de Miriam Caldasso, e Gustavo Parise, que corre com Diego Lopez.
NA HORA DE COMPRAR:
- Em primeiro lugar, faça o teste de pisada para saber qual o seu modelo certo de tênis. Fazendo isso o tênis se desgastará menos, pois ele tem o reforço certo para cada tipo de pisada.
- Ainda na loja, teste se o tênis possui características de impacto – a maioria procura saber se o modelo é flexível.
- Se possível, tenha dois pares para intercalar entre um treino e outro. O material de amortecimento do tênis leva mais de 24 horas para recuperar sua elasticidade e forma depois de um treino de corrida. Usando todos os dias isso não acontece, podendo causar lesões.
- Utilize os tênis de solado correto de acordo com o piso (por exemplo, treinos off road requerem tênis apropriados para tal situação).
- Prefira as meias próprias para corrida; elas são desenvolvidas para evitar que o suor fique acumulado.
Fonte: http://www.multiesportes.com.br
Fonte: http://www.multiesportes.com.br
05:25
Pedro Victor

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